Shiva, Ganesha e Himalaias. O Xamanismo do Nepal.

A origem do xamanismo é Shiva.

É incrível a semelhança da iconografia do xamanismo himalaya com a do budismo tibetano (que por sua vez, herdou muito da religião xamânica pré-budismo do Tibete, o Bön) e com a do hinduísmo. É de se perguntar também quanto do budismo tibetano e do hinduísmo não vem do xamanismo himalaya, já que ele é praticado desde a idade da pedra, praticamente. Vamos conhecer agora uma história fascinante, a versão nepalesa da história de Ganesha, um dos principais deuses do panteão Hindu, “O Primeiro Xamã”.

Oração a Ganesha, o Guardião da Passagem

“Jai Ganesha, Jai Ganesha, Jai Ganesha Deva
Mata Shrii Parvai, Pita Mahadeva
Jai Ganesha, Jai Ganesha, Jai Ganesha Deva
Ek danta, dua danta, char bhuja dhari
Kapal bhari raato sindoor musa ko sawari
Jai Ganesha, Jai Ganesha, Jai Ganesha Deva”

(TRADUÇÃO)

“Oramos a ti Ganesha, Pai dos Deuses
Sua mãe é a senhora Parvati, seu pai Mahadeva
Oramos a ti Ganesha, Pai dos Deuses
Você que tem dois tipos de dentes e quatro braços fortes
Você que tem vermillion na testa
E cavalga em um rato
Oramos a ti Ganesha, Pai dos Deuses”

É obrigatório que todos os xamãs nepaleses — engajados em oração, ritual ou cerimônia — primeiro invoquem o deus com cabeça de elefante, Ganesha, já que ele foi o primeiro xamã na história do mundo. Ele foi o primeiro ser a experimentar a morte. Devido ao seu renascimento também foi capaz de dominar e superar a morte. Uma pessoa que deseja entender algo sobre xamanismo precisa primeiro experimentar sua própria morte. E essa é uma árdua tarefa! Mas como Indra Gurung, um xamã gurung do Nepal, diz, “sem a experiência de morte, não há xamanismo”. A pessoa que não morreu alguma vez como ser humano não pode entender nada sobre a natureza do xamanismo. Shiva e Parvati, o Senhor do Universo e a Filha dos Himalayas, conceberam o primeiro ser através do sexo e do erotismo. União em desejo e amor é a verdadeira origem de qualquer coisa, de toda criatura e todo ser humano. Sem nossos pais, nenhum de nós estaria aqui. “Nossos pais nos convidaram a estar aqui”.

O seguinte mito nepalês explica porque Ganesha é o primeiro xamã da história e o guardião da entrada.

Ganesha – O Primeiro Xamã

Shiva passou diversas eras na montanha sagrada de Kailash, concentrado em si mesmo e na criação. Seu lingam de fogo sem fim, alcançando o infinito, já havia demonstrado sua precedência e poder a Vishnu e Brahma, seus dois colegas divinos que foram feitos carne.

Quando Shiva tomou consciência de como era solitária sua vida nas alturas geladas, também percebeu a beleza incomparável de Parvati, a filha dos Himalayas. Profundamente atraído por sua graça e dignidade, ele devotou atenção total a essa deusa feminina; ele e seu lingam divino ficaram eternamente a disposição dela.

Parvati alegremente cedeu seus encantos a Shiva. Por séculos eles se entrelaçaram em um abraço divino, se ocupando em nada mais que o prazer mútuo.

O sol nasceu e se pôs incontáveis vezes diante de Shiva deliciado nos braços de sua esposa. Até ele sentir necessidade de explorar os mundos banhados pelos raios do sol Surya e a lua Chandra. Tomado de um alegre desejo de explorar o desconhecido e penetrar em novas realidades com todo seu divino poder, deixou Parvati e foi andar pelos mundos.

Após séculos vagando, seu caminho o levou de volta ao lugar em que ele experimentou sua maior glória — a terra de sua esposa divina, Parvati. Para grande surpresa de Shiva, ele encontrou um jovem esplêndido guardando essa familiar entrada.

Os músculos desse homem refletiam o sol poente e a graça de seus membros se assemelhava aos do próprio Shiva. Raivoso, ele foi até o intruso e exigiu saber quem ele era. O estranho respondeu ao onipotente em sua frente: “Essa é a minha casa. Eu sou o guardião do entrada. Quem é você, desconhecido, que entra em meu caminho de maneira tão pouco amigável?”. Com isso, uma fúria descomunal tomou conta de Shiva Mahadev. Espumando de raiva, ele decapitou o estranho com um só golpe e entrou em seu lar, negligenciado por tanto tempo.

“Quem era aquele estranho em minha porta?”, perguntou à sua esposa, ainda tremendo do encontro com o rival inesperado. “Aquele era o nosso filho”, respondeu Parvati já trêmula com o que estava por vir.

“Eu acabei de matá-lo”, lamentou em tom monótono. Horrorizado e sem esperança, o casal criador do início do espaço/tempo caiu um nos braços do outro. “Como eu poderia saber que era meu próprio filho?”. Parvati suspirou: “Como eu poderia te informar que você tem um filho, quando passa tanto tempo em mundos longínquos?”.

Assombrado pelo fato de ter permitido que sua raiva o levasse a um ato tão hediondo, Shiva Pashupati, o Senhor dos Animais, decidiu entrar na selva. Para gerar uma segunda vida ao filho, ele sacrificaria o primeiro animal que cruzasse seu caminho.

O primeiro que encontrou foi um elefante. Shiva Mahadev se curvou diante do Reis das Estepes e Florestas, cortou sua cabeça, agradeceu a criatura de quatro patas pelo sacrifício e carregou para casa a poderosa cabeça. Ele posicionou a cabeça do animal na carcaça sem vida do filho e soprou uma nova vida dentro dele.

Assim que Ganesha, filho de Shiva e Parvati, abriu os olhos para a nova existência, Shiva, o Destruidor e Criador do Universo, dirigiu essas palavras à cria divina: “Por favor, me perdoe pelo meu feito descuidado. Agora que você ressuscitou para uma nova vida, o primeiro agradecimento e a primeira invocação de qualquer ser vivo devem ser feitos a você. Antes que as pessoas possam prestar suas homenagens a mim, até o fim dos tempos elas devem primeiro oferecer seus respeitos a você.”

Ganesha, o ser com cabeça de elefante e barriga protuberante, Deus da Benevolência, Felicidade e Riqueza (do coração, não de dinheiro), veio ao mundo como o fruto da maior glória. Experimentou raiva, morte e uma reanimação com amor e piedade. Ele deve sua vida a essas energias emocionais e vitais contrastantes. Esse é o motivo dele ter se tornado o modelo para os shamans nativos do reino Hindu (apesar do fato de que a existência deles vem de tempos em que ainda nem havia religião institucionalizada). Ganesha se tornou o primeiro shaman a ser iniciado.

Todos os jhankris (xamãs nepaleses) invocam Ganesha primeiro, antes mesmo de Shiva e Agni. Eles fazem isso com a oração que introduz este capítulo. O rabanete (Raphanus sativus ou radicula) — conhecido como “mula” no Nepal — é a planta sagrada do Deus Elefante. Ele pode ser visto em máscaras ou em ilustrações pictográficas. Mas, na verdade, não há nenhuma relação real com o rabanete. Ao invés disso, trata-se de uma planta chamada “ban mula” (rabanete selvagem), “daling”, “belu chare” ou “pangla bung”. O gosto é similar ao do rabanete. Ela é comida afoitamente pelos xamãs, já que seu consumo fortalece o shakti (energia vital). Essa planta é um símbolo de Ganesha: é metade animal, metade vegetal. O rabanete selvagem é metade raiz, metade folhas — assim é um símbolo similar à mandrágora da Europa.

Shiva designou Ganesha como o guardião de passagens, cruzamentos e portais de todos os tempos e mundos possíveis. Projetado no corpo humano, Ganesha também é o Protetor dos Chakras. Ele guarda a entrada do chakra sexual, a fonte do poder shamânico curador. Esse chakra fundamental (muladhara chakra) é a fonte de toda a energia (shakti), sem o qual nenhum ser humano pode viver. Essa é a diferença entre humanos e xamãs. Humanos que não praticam tantra ou Kundalini Yoga não são capazes de canalizarem conscientemente essa energia. Já os xamãs transformam-na em amor incondicional e consciência universal.

A xamã Tamang, Maile Lama, explica para nós: “A energia (shakti) nasce no chakra sexual. Dali ela ascende para o chakra do coração, onde é transformada em amor. Esse é o poder curador shamânico. Se a energia subir mais, até o chakra da testa, a energia-amor se transforma no estado desperto. Alguém só é um ser humano completo quando todos os chakras se conectam um ao outro pela energia fluindo”. A origem da criatividade é a psicoatividade. A origem do xamanismo é Shiva. A origem das substâncias psicoativas é o amrita, o Elixir da Vida. Shiva é o Senhor das Plantas de Poder e o Deus da Psicoatividade. Apenas um espírito que é movido pode mover alguma coisa.

Surendra Bahadur Shahi

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