Viagem Mágica – São Thomé das Letras

Viagem mágica a cidade mineira São Tomé das Letras, passaremos maravilhosos dias num chalé charmoso e particular ao lado da cachoeira Vale das Borboletas. Um chamado direcionado especialmente ao seu coração, à sua consciência intuitiva e realizadora!

Cerimônia Tradicional de “Peyote” – Sáb. 01/07

Cerimonia Tradicional de Meia Lua “Peyote” – Com Gerardo Arrieta. (Native American Church)

CEREMONIA DE MEDIA LUNA PEYOTE
Esta ceremonia representa el centro de la espiritualidad Nativo Americana. Es una ceremonia de sanación espiritual, se realiza a través de la oración personal, interactuando con los cuatro elementos de la vida, sintiendo los latidos de la Madre Tierra a través de las vibraciones del tambor de agua, disfrutando del ritmo natural de la sonaja y las canciones de oración de la medicina, Una conexión espiritual con los implementos ceremoniales como los abanicos tradicionales de plumas, el silbato de águila, el uso ritual de la salvia, el cedro, el tabaco y la guía del hombre del camino/hombre medicina.

Este tipo de ceremonias comúnmente se les conoce como encuentro familiar donde hay cabida para cada integrante de la familia y a veces con sus invitados. Es bueno saber que cada familia o “Clan” tiene su formas particulares con ciertos detalles referentes a como se realiza la ceremonia dependiendo de las instrucciones de los lideres de dichos clanes y su historias correspondientes.Es importante mencionar que los participantes asisten para apoyar la oración principal de la ceremonia, pero también se pide llevar un propósito personal para el cual orar, propósito que puede ser solucionar algún problema físico, emocional, mental o espiritual, celebrar una ocasión especial, petición de familia o amigos o simplemente para dar gracias. Así se le recomienda a los participantes de centrarse en su motivo personal, así como apoyar en todo momento el propósito principal de la ceremonia.

INFORMAÇÕES:
* As cerimônias serão conduzidas pelo casal de Medicina Gerardo Arrieta e sua companheira Emily Arrieta.

* Como planta de poder será utilizado o Cacto Peyote (Hikuri).
* Em caso de duvidas falar com Alecsandre no WhatsApp: 11 95059.8040

O QUÊ TRAZER: Lanches, sucos e frutas para compartilhar, agasalhos, cobertores e colchonetes.

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Cerimonia Tradicional de Meia Lua com Gerardo Arrieta.
Data: Sábado, 01 de Julho de 2017. Chegada à partir das 18h.
Contribuição: R$ 200,00

Importante: Confirme sua presença antecipadamente.

Recomendações: Não ingerir bebidas alcoólicas, drogas e carne vermelha nos 2 dias que antecedem o ritual. Evite embutidos, alimentos gordurosos, grandes aglomerações e relações sexuais. Pedimos optar por roupas claras, confortáveis e discretas. Trazer cobertor, colchonete e blusa de frio. Um prato de doce ou salgado, frutas ou sucos para confraternizarmos no final.

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Rito de Passagem da Renovação. Ritual Solstício de Inverno, sábado 24 jun às 22h.

No inverno tudo parece estar dormindo, congelado, mas, na verdade, grandes crescimentos estão acontecendo. As sementes começam a se enraizar debaixo da terra. Essas raízes vão dar sustentação à planta, quando ela desabrochar na primavera.

O inverno é para desacelerar, retirar-se, entrar na escuridão e na quietude. O crescimento é para dentro, interior. No inverno buscamos a visão, a voz interior da sabedoria. Praticamos a paciência… saber esperar é diferente de perder tempo.

Nos preparamos para mais um encontro inesquecível!

Sábado dia 24 às 22h tem Ritual de Solstício de Inverno no Neo Xamanismo.

Michael Harner

Trailer: O Caminho do Xamã 2017, Michael Harner.

“THE WAY OF THE SHAMAN.” O Caminho do Xamã: O Trabalho de Michael e Sandra Harner. Documentário (69 min.) 2017

“O que Yogananda fez para o hinduísmo e DT Suzuki fez para o Zen, Michael Harner tem feito para o xamanismo, ou seja, trazer a tradição e sua riqueza para a consciência ocidental.
-Roger Walsh e Charles S. Grob, Sabedoria Superior

Este documentário conta a história de Michael e Sandra Harner na história e no desenvolvimento do xamanismo central, as práticas universais e comuns dos xamãs em todo o mundo. O filme leva-nos através das primeiras expedições de Michael como um jovem estudante de antropologia para as selvas da Amazônia equatoriana e peruana e sua vida-alterando insights sobre o poder xamânico. Os Harners estabeleceram a Fundação para Estudos Chamánicos para preservar, estudar e ensinar o xamanismo em benefício de todos, levando a um renascimento mundial do xamanismo através dos primeiros programas internacionais de treinamento da Fundação. O filme é um olhar informativo e inspirador para as pessoas por trás da evolução de uma nova metodologia de cura espiritual que honra e constrói sobre o antigo conhecimento dos xamãs do mundo. Através desses métodos, milhares de estudantes descobriram recursos espirituais escondidos, transformaram suas vidas e aprenderam como ajudar os outros e nossa preciosa Terra.

O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase.

Uma primeira definição desse fenômeno complexo, e possivelmente a menos arriscada, será: Xamanismo = Técnica do Êxtase.

Atualmente existe à disposição uma pletora de obras sobre o xamanismo, algumas com nfoque antropológico, outras com enfoque histórico, outras com enfoque ficcional e outras ainda (certamente a maior parte) com um enfoque místico que poderíamos chamar de new age. É preciso deixar claro que é o primeiro enfoque, o antropológico, que produz a maior parte do material sobre o qual os outros enfoques se sustentam, sendo a literatura new age aquela que mais tende a distorcer este material em benefício de ideologias do momento. Mas sendo o material antropológico muito vasto, heterogêneo e especializado, creio ser preferível iniciarmos nossa investigação com uma obra clássica de enfoque histórico mas cujo alcance conceitual foi sentido mesmo dentro da antropologia. Trata-se de O Xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase (1998 [1951]), talvez a mais influente obra até hoje sobre xamanismo, escrita pelo historiador das religiões romeno Mircea Eliade.

“Apesar das numerosas reservas que atualmente se fazem a esta imponente obra”, aponta lucidamente Bernard S. D’Anglure, “ela permanece a melhor introdução ao xamanismo, no tocante tanto aos temas abordados quanto à diversidade de tradições culturais descritas” (1996). Apesar de a influência desta definição de xamanismo ter sido mais explícita nas pesquisas de cunho histórico (cf.Sullivan,1988) e fenomenológico (cf.Ripinsky-Naxon, 1993), ela também pode ser percebida em pesquisas antropológicas e etnográficas de outras orientações, que mesmo quando não fazem referência direta à obra de Eliade adotam o conceito de técnicas do êxtase para tratar das experiências xamânicas (cf.Langdon, 1992 e 1996). O motivo da ausência de referências explícitas a Eliade por
parte dos antropólogos e etnólogos é de fácil compreensão: Eliade é famoso por nunca ter pesquisado o xamanismo fora das bibliotecas e, principalmente, por ter distorcido informações para que se encaixassem em seu projeto purista e essencialista de descobrir “o verdadeiro xamanismo Siberiano”4. No entanto como explicar a ampla influência (mesmo que anônima) de sua definição de xamanismo como técnica do êxtase?

Falar de xamanismo é uma atividade controversa, pois a idéia de que exista um “xamanismo” em geral independente dos “xamãs” particulares é apenas uma ficção metodológica. Cada sociedade tem seus próprios rituais de iniciação ao xamanismo, e mesmo dentro de uma mesma sociedade estes rituais podem variar de acordo com o caso. Além disso, atualmente já se sabe que a palavra “xamã”, apesar de designar a pessoa, não indica exatamente uma propriedade da pessoa mas sim uma qualidade dela, um poder que ela adquire e que ela pode também perder; não é algo que se é e sim algo que se tem ou que se pode. Por último, é preciso não se esquecer da máxima epistemológica a produção de conhecimento influencia no próprio conhecimento produzido, sintetizada no slogan “saber é poder”: o olhar que cada antropólogo em cada época e contexto lançou a cada xamã certamente influenciou aquilo que ele viu. Jeremy Narby e Francis Huxley mostram isso muito bem na coletânea Shamans Through Time: 500 Years on the Path to Knowledge: se há alguma coisa que mudou nos últimos cinco séculos de pesquisas sobre o xamanismo, foi “o olhar dos pesquisadores” (Narby e Huxley, 2001). Assim não podemos, a princípio, falar de “xamanismo” a não ser como um “tipo-ideal” construído a partir de muitos estudos particulares de casos particulares e ainda em processo de formação.

Mas se a análise comparativa de práticas xamânicas de uma grande quantidade de tribos diferentes não nos oferece mais do que um “tipo-ideal”, isso não nos impede de usar esta tipologia como recurso interpretativo. É preciso apenas atentar para que a forma “xamanismo” nunca deixe de se informar sobre as singularidades da matéria dos xamãs, nunca se torne um molde acabado que então só reduziria esta matéria a uma forma pré-estabelecida. E não é isso que deveria ocorrer com qualquer (bom) conceito? É verdade que não existe um xamanismo em geral, apenas xamãs particulares. Mas a descoberta de um traço comum a todos os xamãs conhecidos e capaz de dar conta de suas singularidades certamente pode dar origem a um conceito de xamanismo. O conceito eliadeano de “xamanismo como técnica do êxtase” tem tido uma boa aceitação na antropologia, apesar dos problemas de seu criador7, pelo simples fato de que ele dá conta do fenômeno e é capaz de se deixar informar por cada nova descoberta feita sobre o fenômeno. Ele se disseminou pois conseguiu captar, mesmo que por vias equivocadas, uma característica fundamental do fenômeno, a saber: a capacidade do xamã de controlar tecnicamente o êxtase seu e alheio. Quanto mais se conhece os xamãs mais se percebe que é justamente isso que os caracteriza. Suas viagens para os mundos espirituais, seus transes, suas canções, seus mitos, seus rituais de cura, adivinhação, propiciação etc., apesar de todas as singularidades contextuais, podem ser definidos como diferentes formas de operar um transporte para a dimensão pré-individual das relações com o objetivo de transformálas de acordo com as necessidades (como quem consegue dirigir seu próprio sonho, só que tornando-o realidade).

Xamanismo “STRICTU SENSU”

A compreensão adequada da influente definição eliadeana de xamanismo como técnica do êxtase depende do conhecimento do contexto em que foi apresentada. Eliade escreveu em uma época em que a compreensão do xamanismo “se aprofundava” (cf. Narby e Huxley, 2001), e temos motivos para crer que a sua mistura peculiar (e muitas vezes prejudicial) de dispersão documental e concentração conceitual contribuiu enormemente para este aprofundamento. Tratava-se, num primeiro momento, de um esforço explícito pela defi nição daquilo que ele chamou de “xamanismo stricto sensu”: “um fenômeno religioso siberiano e centro-asiático”. Além das implicações etimológicas (a palavra “xamã” deriva do tungue, idioma dos Evencos, da Sibéria), o autor argumentava que a “vida mágico-religiosa” dos povos siberianos e centro-asiáticos gira em torno do xamanismo, pois “em toda essa região, onde a experiência extática é considerada a experiência religiosa por excelência, é o xamã, e apenas ele, o grande mestre do êxtase”. Mas se a definição eliadeana do xamanismo partia de um xamanismo geográfica e historicamente específico, em seguida ela se transforma numa espécie de “tipo-ideal” encontrado em diferentes graus de “pureza” por todo o mundo9 e caracterizado por aquilo que ele denominou de “as técnicas do êxtase”. E é partindo deste recorte que, logo no início do livro, ele clama por uma distinção entre o “xamanismo stricto sensu” e a enorme variedade de termos “análogos” que abundam na literatura especializada e que, a seu ver, só prejudica a compreensão do “fenômeno xamânico em si”:

“Se por ‘xamã’ se entender qualquer mago, feiticeiro, medicine-man ou extático [a tradução para o português acrescenta ainda “curandeiro” e “pajé”] encontrado ao longo da história das religiões e da
etnologia religiosa, chegar-se-á a uma noção ao mesmo tempo extremamente complexa e imprecisa, cuja utilidade é difícil perceber, visto já dispormos dos termos ‘mago’ e ‘feiticeiro’ para exprimir noções tão
díspares quanto aproximativas como as de ‘magia’ ou ‘mística primitiva’.”

“Magia e magos há praticamente em todo o mundo, ao passo que o xamanismo aponta para uma ‘especialidade’ mágica específica […] : o ‘domínio do fogo’, o vôo mágico etc. Por isso, embora o xamã
tenha, entre outras qualidades, a de mago, não é qualquer mago que pode ser qualificado de xamã. A
mesma precisão se impõe a propósito das curas xamânicas: todo medicine-man cura, mas o xamã emprega um método que lhe é exclusivo. As técnicas xamânicas do êxtase, por sua vez, não esgotam todas as variedades da experiência extática registradas na história das religiões e na etnologia religiosa; não se pode, portanto, considerar qualquer extático como um xamã: este é o especialista em um transe, durante o qual se acredita que sua alma deixa o corpo para realizar ascensões celestes ou descensões infernais.”

Sendo, portanto, as “técnicas do êxtase” o elemento distintivo deste “fenômeno xamânico em si”/”xamanismo stricto sensu”, nada mais indicado do que iniciar nossa pesquisa a partir do uso que o historiador das religiões faz daquele termo. No entanto, debruçando sobre o seu uso do termo “êxtase”, nos deparamos de imediato com um excesso de definições conflitantes e nada sistemáticas que acaba por comprometer o poder analítico do tipo-ideal proposto. Não mais do que três páginas após afirmar que “não se pode […] considerar qualquer extático como um xamã”, por exemplo, Eliade transforma em sinônimos “xamã” e “extático”, “experiência xamânica” e “experiência extática”. E basta um estudo sistemático da obra para perceber que esta confusão terminológica jamais se esclarece – pelo contrário, se complica, sua terminologia variando indefinidamente. Ainda mais lamentável é o fato de que esta “indefinição” provoca contradições notáveis na própria argumentação de Eliade em favor do “xamanismo stricto sensu” e contra suas variações “desvirtuadas”, “degradadas” e “decadentes”, como quando ele afirma que, dada a “trans-historicidade” e a “completa reversibilidade” do “sagrado”, “nenhuma ‘forma’ é exemplo de degradação e decomposição, nenhuma ‘história’ é definitiva”, ou que “não há a menor probabilidade de se encontrar, em parte alguma do mundo ou da história, um fenômeno religioso
‘puro’ e perfeitamente ‘original’, […] pois a ‘história’ ocorreu em todos os lugares, modificando, refundindo, enriquecendo ou empobrecendo as concepções religiosas, as criações mitológicas, os ritos, as técnicas do êxtase”. Mas é inútil insistir na demonstração das inconsistências terminológicas da definição eliadeana de “xamanismo stricto sensu”, visto que a perspectiva da história das religiões parece mesmo não apresentar como problema esta maleabilidade conceitual. Pelo contrário, ela parece apoiarse nela, transformando-a mesmo na essência do próprio “fenômeno religioso”14, o que explica o seu muitas vezes alegado “misticismo”.

Além disso, Eliade nunca dissimulou a sua busca por um xamanismo “ideal”, e para isso empregou uma impressionante quantidade de livros e artigos, principalmente sobre o xamanismo asiático. Por isso, quando dizia “xamanismo em si”, ele se referia menos às práticas rituais do xamã em seu contexto social particular e mais a uma “simbologia do êxtase”, cristalizada naquilo que ele chamou de “ideologia xamânica”. Talvez pudéssemos dizer que os principais méritos de sua pesquisa foram dois: (1) organizar e sintetizar a enorme quantidade de pesquisas disponíveis até então sobre xamanismo, dando
início a uma nova fase no estudo do fenômeno; e (2) propor uma terminologia unificada, mesmo sem tê-la desenvolvido plenamente, composta pelas noções de “xamanismo stricto sensu” e, principalmente, “técnicas do êxtase”. Não se trata aqui, portanto, de criticar a ambição de Eliade por uma definição do “fenômeno xamânico em si” a partir de conceitos obscuros e pouco atentos à realidade etnográfica (isto já foi feito a contento pela antropologia). Pelo contrário, partimos da constatação de que esta definição de xamanismo (“xamanismo=técnica do êxtase”) se aplica com enorme propriedade às mais diversas manifestações do fenômeno16, sendo nosso objetivo, na verdade, retomá-la a partir de uma revisão crítica da própria noção de “técnica do êxtase”, tarefa esta que não foi realizada nem por Eliade e nem por mais ninguém – o que me parece surpreendente, visto que, tudo leva a crer, uma das principais causas da confusão terminológica que assola os estudos de fenômenos classificados como “religiosos” e que finda por comprometer a sua aplicação para além de um misticismo nebuloso é justamente a ausência de uma maior preocupação com o rigor conceitual.

As técnicas “Arcaicas”

Apesar da abundância de definições que Eliade oferece para o êxtase ao longo de O Xamanismo…, em nenhum lugar encontramos uma síntese completa que englobe todas elas. Mas algumas destas definições “parciais” são particularmente eloqüentes, como quando, considerando a “doença-iniciação” dos xamãs, Eliade afirma: “As doenças, os sonhos e os êxtases mais ou menos patogênicos são […] meios de acesso à condição de xamã. Às vezes, essas experiências singulares significam apenas uma ‘escolha’ […]. Mas quase sempre as doenças, os sonhos e os êxtases constituem em si uma iniciação, ou seja, conseguem transformar o homem profano de antes da ‘escolha’ em um técnico do sagrado. É claro que essa experiência de ordem extática é sempre […] seguida por uma instrução teórica e prática a cargo dos velhos mestres, mas não deixa por isso de ser decisiva, pois é ela que modifica radicalmente o status religioso da pessoa ‘escolhida’. […] [T]odas as experiências extáticas que decidem a vocação do futuro xamã comportam o esquema tradicional das cerimônias de iniciação: sofrimento, morte e ressurreição. […] Certos sofrimentos físicos serão traduzidos com precisão numa forma de morte (simbólica) iniciática, como por exemplo no despedaçamento do corpo do candidato (=doente), experiência extática […]. […] Quanto ao conteúdo dessas experiências extáticas iniciais, embora seja bastante rico, quase sempre comporta um ou vários dos seguintes temas: despedaçamento do corpo seguido pela renovação dos órgãos internos e das vísceras, ascensão ao Céu e diálogo com os deuses ou os espíritos; descida aos Infernos e contato com os espíritos e as almas dos xamãs mortos; revelações diversas de ordem religiosa e xamânica (segredos do ofício).”

Temos aqui uma série de elementos constitutivos do êxtase enquanto experiência iniciática. Em primeiro lugar, a forte relação entre “doença”, “sonho” e “êxtase”. Esta relação, retomada diversas vezes ao longo da obra, se baseia no fato de que, no xamanismo, a doença está diretamente ligada à “perda da alma”17 e o sonho é, em si, uma “viagem da alma”. Assim, sendo o êxtase diversas vezes descrito como um “abandono do corpo pela alma”, temos que “doença” e “sonho” podem ser vistos como “experiências extáticas”. Mas mais importante é a relação estabelecida entre “êxtase” e “morte”, que introduz a temática do “esquema tradicional das cerimônias de iniciação”.

Eliade constata que, para além das diversas variações nas formas de recrutamento, iniciação e outorga de poderes xamânicos encontradas nas diferentes manifestações culturais do xamanismo (às quais ele dedica a maior parte dos quatro primeiros capítulos de seu livro), é na experiência extática da morte ritual que reside a essência do processo iniciático. O “despedaçamento do corpo” do candidato, sua “descida ao Inferno” e as “revelações” aí obtidas são as etapas de uma “morte ritual” que, no xamanismo, constitui a essência mesmo da iniciação nas “técnicas do êxtase”. Isso porque é a experiência da morte ritual que irá revelar ao xamã: (1) a forma como seu corpo é mutilado, devorado e renovado pelos espíritos (“desmembramento”); (2) o itinerário perigoso e cheio de “pontes” e “passagens perigosas” que a alma humana deve percorrer em seu caminho para o “mundo dos mortos” (“descida ao Inferno”); e (3) a instrução do xamã, por parte dos espíritos e deuses (“revelações”), nas técnicas que permitirão não apenas a sua própria ressurreição mas, principalmente, a repetição da viagem sempre que necessário: as “técnicas do êxtase”. A experiência “extático-mórbida iniciática” do xamã (caracterizadas pela doença e pelos sonhos extáticos, entre outros) é, portanto, essencialmente didática. Mas o “conhecimento” alcançado nesta experiência não fica restrito ao ambiente do próprio xamanismo, sendo posteriormente incorporado na mitologia, nos rituais e naquilo que Eliade chamou de “geografia funerária”:

“É graças à sua capacidade de viajar para os mundos sobrenaturais e de ver os seres sobre-humanos
(deuses, demônios, espíritos dos mortos etc.) que o xamã pôde contribuir de maneira decisiva para o conhecimento da morte. É provável que grande número de características da ‘geografia funerária’ e que certo número de temas da mitologia da morte sejam resultado das experiências extáticas dos xamãs. As paisagens que o xamã avista e as personagens que encontra em suas viagens extáticas para o além são minuciosamente descritas por ele mesmo, durante ou após o transe. O mundo desconhecido e terrificante da morte toma forma, organiza-se segundo tipos específicos; acaba ganhando estrutura e, com o tempo, torna-se familiar e aceitável. […] Aos poucos, o mundo dos mortos vai-se tornando cognoscível, e a própria morte acaba assumindo o valor de rito de passagem para um modo de ser espiritual.”

O conhecimento adquirido pelo xamã em suas experiências extático-mórbidas seria, assim, numa espécie de autopoese escatológica, a própria matéria prima da qual seriam compostos os mitos e as crenças relativas à morte. Mas dentre as habilidades xamânicas tornadas possíveis por estas experiências de “morte ritual”, uma é de especial interesse para nós. Trata-se da “psicopompia”, e sua relevância reside no fato de que ela apresenta, em forma condensada, os principais elementos daquilo que Eliade denominou “as técnicas do êxtase”:

“O xamã é curandeiro e psicopompo porque conhece as técnicas do êxtase, isto é, porque sua alma pode abandonar impunemente o corpo e vagar por enormes distâncias, entrar nos Infernos e subir ao Céu.
Ele conhece, por experiência extática pessoal, os itinerários das regiões extraterrenas. Pode descer aos
Infernos e subir ao Céu porque já esteve lá. O risco de perder-se nessas regiões proibidas é sempre grande, mas, santificado pela iniciação e munido de seus espíritos guardiões, o xamã é o único ser humano que pode correr esse risco e aventurar-se numa geografia mística. […] É […] graças a essa capacidade extática que o xamã […] conhece o itinerário e, além disso, é capaz de controlar e conduzir ‘almas’, sejam elas de pessoas ou de animais.”

Aqui nós encontramos, relacionados, termos freqüentemente usados por Eliade para definir o êxtase, como: o “abandono do corpo pela alma”; a “descida aos Infernos”; a “ascensão ao Céu”; o conhecimento dos “itinerários das regiões extraterrenas” (da “geografia mítica”); e a “condução de almas” (“psicopompia” propriamente dita). Segundo Eliade, para ser capaz de conduzir uma alma ao seu destino final, o “xamã-psicopompo” precisa: (1) ser capaz de abandonar “impunemente” (ou seja, sem morte definitiva) o próprio corpo e assim assumir a forma espiritual da alma que deve conduzir; (2) ser capaz de orientar seu vôo para cima (“Céu”) ou para baixo (“Inferno”), de acordo com as necessidades; (3) ter acesso ao “além”, ou aos “mundos sobrenaturais”, e assim transpor a “passagem difícil” que tradicionalmente prende a alma do morto recente ao mundo dos vivos, causando os mais variados problemas; e (4) conhecer a “geografia mítica” de forma a conduzir a alma, sem transtornos, para o seu destino adequado. Sendo estes os elementos básicos da psicopompia, e sendo a psicopompia uma possível aplicação das técnicas do êxtase, é apenas lógico que possamos tomá-los como uma lista de técnicas do êxtase. Note-se que o êxtase não é apanágio dos xamãs, sendo as “técnicas” do êxtase aquilo que os distingue dos “demais extáticos”. A centralidade das “técnicas xamânicas” para esta visão do xamanismo pode ser confirmada pela sua permanência nos estudos de Lawrence E. Sullivan (1988) sobre o “xamanismo sulamericano como técnica do êxtase”. Sullivan consegue ir muito além de Eliade naquilo que ele chamou de “total hermeneutics of the religious condition of mankind” (Sullivan,1988), certamente por ter se beneficiado pelos “criticismos recentes e inovações das ciências culturais, especialmente a antropologia” (Sullivan, 1988), mas principalmente por empregar, na dimensão temporal, um esquema tripartido (primórdios, cosmos e apocalipse), em lugar do “dualismo trágico” eliadeano entre o “tempo histórico” e o “tempo mítico”.

No sétimo capítulo de Icanchu’s Drum, dedicado aos “especialistas”, Sullivan (1988) apresenta o xamanismo como sendo aquela especialidade religiosa cuja legitimação se baseia na “experiência extática”, classificando o xamã, portanto, como “ecstatic specialist”. Afirmando, como Eliade o havia feito em relação aos povos Siberianos, uma certa “ubiqüidade e importância central na América do Sul” da “experiência extática” (Sullivan, 1988), Sullivan dedica pouquíssimo espaço às duas outras “bases de autoridade religiosa” (“possessão” e “cânone”), evidenciando ainda mais a importância da noção de “êxtase” para a sua visão do xamanismo. Para explicitar esta importância, cabe citar aqui o parágrafo introdutório à seção dedicada ao xamanismo (“ecstatic specialists”):

É importante perceber que, para Sullivan (assim como para Eliade no caso do xamanismo siberiano), o xamã não é o único “ecstatic specialist”, mas apenas “o mais importante e bem conhecido […] na América do Sul”, e que portanto o que o caracteriza não é o êxtase em si, mas sim a sua especialização “no conhecimento e cuidado das almas dos outros”, i.e., seu meta-êxtase.

 

Terence McKenna – O Retorno à Cultura Arcaica.

Só de ler você já fica em estado ampliado de consciência.

O mundo vai se acabar em 2012. Entraremos então na Supermente, o Logos, matriz de toda a linguagem. O OVNI é uma inteligência superior com que podemos entrar em contato através dos cogumelos. A realidade virtual transformará os sons em imagens. As raves são espaços privilegiados para a transcendência e superação do ego. Estamos agora no limiar de um retorno à cultura arcaica e ao xamanismo. Todas essas idéias e memes estão inevitavelmente ligados a Terence McKenna. Falecido em 03 de abril de 2000, McKenna era considerado por muitos o sucessor de Timothy Leary. Guru psicodélico, McKenna era um explorador do caminho aberto por Huxley, Wasson, Leary, Metzner e outros no estudo dos efeitos das substâncias psicodélicas sobre a imaginação humana. Seu objeto de estudo, ao contrário de Leary, não eram produtos de laboratório como o LSD, nem mesmo o símbolo da geração bpm, o ecstasy. Não, McKenna era mais natureba e seus principais focos de atenção eram os cogumelos que contivessem psilocibina, e o DMT, um psicoativo poderoso presente no ahayausca ou mais conhecido no Brasil como Santo Daime.

O DMT, quando fumado, produz um estado alterado de consciência por cerca de cinco minutos que, dependendo da quantidade utilizada, proporcionaria visões que nos permitiriam ter acesso a uma forma superior de inteligência extraterrestre presente desde tempos imemoriais em simples cogumelos silvestres como o Stropharia cubensis . Esta forma não humana de inteligência pode dialogar com o homem neste estado e seria na verdade uma matriz da linguagem proveniente do Logos ou Supermente criadora de todo o padrão presente na natureza desde a sua criação. Pequenos trols e duendes mecânicos falando através de imagens poligonais e bolas de basquete de cristal. Muito pirado? Pois isso é só o começo…

McKenna é um filho típico da contracultura dos 60 e foi estudante em Berkeley. Ao contrário da geração anterior, no entanto, Mckenna não fez o drop-out ( cair fora ) dos hippies. Trouxe, isso sim, o fruto de seus estudos sobre os psicodélicos naturais para um publico vasto e não só acadêmico. Seu esforço em estudar os efeitos desses psicoativos ao longo de toda a vida vem no bojo de uma geração que pode hoje em dia dissertar sobre os psicodélicos em centros de estudo relativamente considerados como Esalem ou o Instituto de Ciências Noéticas.

Seu nome é tão importante quanto o de psicanalistas como Leary, Ralph Metzner ou Stanilav Grof, o estudioso de golfinhos Dr. John Lilly, o bioquímico Rupert Sheldrake ou o matemático Ralph Abraham. Com estes dois últimos por sinal publicou um livro, traduzido no Brasil pela editora Cultrix, chamado Triálogos. Nele são discutidos temas científicos e holísticos como a teoria do caos, a hipótese Gaia, campos morfogenéticos, realidade virtual e êxtases xamãnicos. Junto com Sheldrake e Abraham, McKenna toca em temas vitais para a fringe science (ciência alternativa) de nossa época. A física quântica e a teoria do caos têm permitido à ciência entrar em terrenos antes considerados tabu, e já não parece nem um pouco estranho falar de uma consciência global do planeta, nem em rituais xamãnicos como instrumento de cura.

Tudo isso faria parte de um movimento da humanidade de retorno à cultura arcaica dos povos primitivos e, nesse sentido, as tribos indígenas seriam verdadeiros repositórios da inteligência milenar do planeta e guardiões dos segredos das plantas, do ecossistema e do próprio espírito de Gaia, a Terra.

Esta nova consciência, que já estaria latente em toda a arte e cultura do século vinte como nostalgia do arcaico, muito mais que “ nova era ”, seria o que McKenna denomina de revival arcaico ( archaic revival ), nome por sinal de um de seus livros traduzidos em português, aqui intitulado O Retorno à cultura arcaica. Não muito longe está McKenna do que o cientista Thomas Kühn sabiamente chamou de “ mudança de paradigma” em meados dos anos 60, ao se referir ao estado da ciência com a trilha aberta pela teoria da relatividade e a física quântica, uma vez que o determinismo mecanicista da era de Descartes cai por terra.

McKenna escreveu muitos livros (alguns com seu irmão Dennis, neurobiólogo e etnobotanista), entre os quais O alimento dos deuses (ed. Record, 1995), Alucinações reais ( ed. Record, 1993) The Invisible Landscape (Seabury, 1975) e o livro ilustrado ( com o artista Tim Ely) Synesthesia (Granary Books, 1992). No primeiro, McKenna explora a hipótese de que o ser humano adquiriu a linguagem e a reflexão a partir da ingestão de cogumelos na pré-historia, tese antes cogitada por Henry Munn em Os cogumelos da linguagem ( Oxford University Press, org. Michael Harner, 1973). O livro explora igualmente todo um leque de estimulantes e estupefacientes desde o açúcar, o café e o tabaco passando pelo álcool até chegar na cannabis, no cogumelo e no Soma, a bebida sagrada dos Vedas. Junte a isso, dados históricos de civilizações desaparecidas, estudos de hábitos alimentares e uma antevisão do futuro, e o livro se afigura como uma nova abordagem do surgimento da consciência humana.

Em Alucinações reais, McKenna narra a viagem feita por ele com o irmão à floresta amazônica, buscando os psicodélicos naturais da selva com o auxílio de nativos. Essa viagem marcaria para sempre a vida dos dois irmãos e sua importância mítica na trajetória de ambos fez dela muito mais um rito iniciático que uma exploração de caráter científico. Os insights e visões alucinantes com revelações surpreendentes geraram não apenas a narrativa da aventura em Alucinações como seu antecessor, o incrível e estranho The Invisible Landscape.

Autêntico cult psicodélico escrito junto com seu irmão Dennis McKenna, The Invisible Landscape – Mind hallucinogens and the I-Ching ( ainda sem tradução para o português) é a primeira tentativa de interpretar o choque da revelação de suas experiências com os alucinógenos amazônicos num livro que se utiliza tanto da ciência como da filosofia ocidentais, como diz no prefácio Jay Stevens, autor do super cultuado Storming Heaven – LSD and the american dream. A paisagem invisível de McKenna seria visível nos estados alterados de consciência e nas revelações que trariam consigo. O xamanismo e a esquizofrenia como estados de acesso alterado da mente que por sua vez seriam a base de uma teoria holográfica da mente. Dennis compara os estados da mente sob o efeito de psicodélicos em termos neurobiológicos, culminando com as revelações acontecidas em La Chorera. A segunda parte é Terence interpretando a revelação do cogumelo e tudo para dar a base para sua hipótese de estudar o calendário lunar sob a ótica do I-Ching, hipótese essa que lhe teria sido sugerida por uma estranha inteligência insectóide.

“Nós podíamos sentir a presença de alguma entidade hiperespacial invisível, um alien, que parecia estar nos observando e algumas vezes exercendo influência na situação para nos manter movendo gentilmente para uma resolução experimental das idéias que vínhamos tendo. Por causa da natureza alienígena do transe de triptamina, sua aparente acentuação de temas alienígenas, insectílicos, e futuristas e devido a experiências prévias com triptamina em que transformações alucinatórias e insectílicas de seres humanos foram observadas, nós fomos levados a especular que o papel daquele ser era algo como aquele de um antropólogo vindo dar à humanidade as chaves para a cidadania galáctica” .

O estudo do I-Ching sugerido pela inteligência desconhecida revelou que haveria um padrão rítmico no tempo, um ritmo que dançaria em sua cadência pelo milênio até chegar num Ponto Ômega que os McKenna calcularam como sendo o ano 2012. A onda-tempo zero, o fim da história. As análises de dados calculados com base nos hexagramas do I-Ching do que seria uma ressonância temporal de novidades mostram que em 2012 estaremos chegando a uma culminação tamanha de entrada de novidades na esfera dos acontecimentos que chegaremos a um ponto máximo de sublimação temporal. É igualmente quando acaba o calendário maia.

Em que ecoem Theilhard de Chardin, as idéias de McKenna sobre o ponto ômega deixam mais claro seu fundo gnóstico, como será visto a seguir, e os irmãos têm uma data precisa para seu acontecimento: 22 de dezembro de 2012, quando o mundo cessar de existir tal qual o conhecemos, quando nos uniremos com a entidade cósmica superior ou Supermente global.
Tal situação, segundo McKenna, seria incrementada pela presença de um objeto desconhecido nessa data nos guiando magneticamente na direção da superação da dualidade corpo e mente pela unificação com o Logos.

Se a visão, digamos, milenarista de McKenna prevê um apocalipse, essa visão é pelo menos bem mais alegre, joyeuse, que as distopias de nossos cientistas sociais. Sua positividade é manifesta. Seu caráter festivo não passou alheio ao público raver que no boom zippie de cinco anos atrás cultuou McKenna como um legítimo profeta da pronóia (o contrário da paranóia, ou sensação de que o mundo conspira a seu favor), cuja linhagem utópico libertária teria aproximação com figuras como Charles Fourier, Wilhelm Reich, Norman O. Brown, Hakim Bey, Raoul Vaneigem, Oswald de Andrade, entre outros.
A jóia rara que é Synesthesia é o resultado de um trabalho conjunto com o artista Tim Elly, e contém desenhos originais e imagens pintadas de misteriosos glifos, mapas e devaneios visionários. Objeto só para colecionadores.

Mas o melhor livro para se introduzir no universo McKenna é sem dúvida O retorno à cultura arcaica, um apanhado geral de suas idéias, reunindo entrevistas, textos escritos para revistas, ensaios, palestras. Por sua urgência de interesse, em espantosa simbiose com o atual estado das coisas, este livro é absolutamente imperdível. O revival arcaico de McKenna nos permite leques de iluminações sobre as fronteiras da mente humana, os precursores dos estudos de psicodélicos, a realidade virtual, a idéia do OVNI como entidade psíquica autônoma.

Sua teoria é de que o extraterrestre é na verdade emanação da Supermente, “campo gerado pelos seres humanos, escapando ao controle de qualquer instituição, governo ou religião”. O OVNI desconcerta a comunidade científica e seu constante “reaparecimento” na mídia cotidiana nos diz que o OVNI representa um poderoso mito de nossa época, ao qual também já se voltaram Jung e Reich. Um mito, se provada a existência, capaz de provocar um choque de proporções insuspeitadas, abalando a ciência oficial e criando uma nova religião. Esta incorporaria em torno do OVNI a mesma devoção arquetípica que o cristianismo aplicou à Ressurreição.

Igualmente surpreendentes são suas conjecturas sobre o amor extraterrestre, isso mesmo, a recente “dimensão erótica” do fenômeno dos discos voadores. Por mais divertidas ou absurdas que possam parecer a miríade de temas abordados por McKenna, a leitura fluida e rápida pelos tópicos mais pirantes na leveza de uma entrevista, que volta e meia reaparecem sob novos prismas em ensaios, funciona caleidoscópicamente para o leitor. Não que suas idéias, é claro, possam ser aceitas com facilidade.

Válidas ou não, a verdade é que as teorias de McKenna repercutem polêmicamente no meio científico. Em que pese os que contestam seu cálculo da onda-tempo zero, McKenna é referência para vários pesquisadores importantes de àreas como biologia, etnobotânica, antropologia ou psicologia.

Mas essas teorias tem um outro subtexto, não científico: a gnose. A visão de mundo gnóstica tem tido um crescente reavivamento de interesse desde a descoberta dos manuscritos de Nag Hammadi, Egito, em 1945. O conhecimento da gnose, que se desenvolveu com o cristianismo e teria raízes em certas seitas gregas, foi praticamente extinto no terceiro século da era cristã por dizimação e perseguição da igreja apostólica. Os manuscritos descobertos no Egito oferecem visões insuspeitadas dos mitos e memes bíblicos, versões diferentes do Gênese, intensa valorização do feminino em certos textos, novas facetas de um cristo irreconhecível talvez, textos pagães, retorno da mitopoética já presente em toda a tradição gnóstica ocidental como no Pistis Sofia descoberto no século dezenove.

A Gnose nos diz que vivemos no mundo do demiurgo, um mundo falso criado por um falso deus que se vale dos seus asseclas, os reguladores ou arcontes, para manter a ordem. Além deste mundo estaria o Pleroma, onde respira a vibração cósmica do Logos, o verdadeiro criador. Uma interpretação simplificada desse mito iniciático significa que vivemos na ilusão de um ego que é o próprio inimigo do homem pois a respiração cósmica não está fora mas dentro dele mesmo, enquanto o ego o mantém na ilusão da existência.

Esta visão brevíssima e superficial da mitopoética gnóstica aparece sob diversas formas nos evangelhos achados em Nag Hammadi. As versões inusitadas e surpreendentes do Cristo e de mitos do velho testamento tem sido exploradas com profundidade e ousadia pela estudiosa Elaine Pagels, que acrescenta sua visão feminina e polêmica das interpretações bíblicas de Nag Hammadi contrapostas às da igreja tradicional.

Theilhard de Chardin, sob o viés mesmo do catolicismo, explorou hipóteses de inegável fundo gnóstico como a do Ponto Ômega de convergência e do Logos, que atribui ao Deus católico. Não obstante a predominância de tal religião sobre sua cosmovisão místico-científica, a Igreja proibiu que o estudioso publicasse seus estudos em vida, só vindo estes a lume post-morten, no que poderia muito bem se admitir que o principal motivo dessa censura fosse a presença subliminar de conceitos gnósticos nas teorias de Chardin.

A gnose e a visão do mundo ao contrário cabe bem em nosso mundo de crescente virtualização. A inversão, o pulo no espelho do Orfeu de Cocteau como estrátegia de conhecimento e de iniciação, tema constante, mesmo um leitmotiv em tantos filmes e ficções do presente como Matrix, o Show de Truman, A vida em preto e branco (Pleasantville), para ficar em apenas três filmes recentes, nos quadrinhos Promethea de Alan Moore, na adoração que artistas como Lydia Lunch ou a banda Sonic Youth lhe devotam, no mito da alucinação consensual coletiva dos cyberpunks como William Gibson, em teses de críticos musicais influentes como Greil Marcus, a arquitetura visionária de Paolo Soleri ou o desenho animado Aeon Flux.

Se o pop ficou gnóstico, é questão a se discutir. Mas o fato é que a gnose pode fornecer muitas chaves para se entender a ficção e ou fenômenos reais como o Heaven’s Gate, mas igualmente para se ler McKenna e o fundo místico de suas idéias.

Não à toa, Erik Davis, brilhante jornalista, entre outros, do Village Voice e da famosa revista Gnosis, criou o termo de tecnognose. O livro, Techgnosis, saiu no ano passado e foi bastante elogiado por sua “história profana” da gnose em nossa época secularizada. Davis enxerga gnose nos lugares mais escondidos, de notas de dólar à arquitetura administrativa, de enredos de séries de tevê a supermercados, e simbologias antes ocultas, mas cotidianas e casuais ressurgem com outra aparência, o desvelar arcano de seu significado. Davis por assim dizer reencanta o mundo reificado da globalização corporativa capitalista com novas interpretações de ritos simbólicos repetidos infinitamente em escala mundial. O próprio conceito da tecnognose seria mesmo essa relação contemporânea de simbiose da tecnologia com a mística gnóstica no subconsciente contemporâneo.

Aqui se encaixa perfeitamente a união que McKenna faz da ciência com a exploração iniciatória dos limites da imaginação e do êxtase. Seu otimismo entusiasmado em relação às possibilidades da realidade virtual como libertadora da linguagem seria um exemplo entre tantos de uma tecnognose mckenniana.
De qualquer forma, a presença de McKenna é um espectro subliminar mas constante no imaginário atual. Suas idéias inspiram bandas eletrônicas como Spacetime Continuum e System 7, tribos de zippies e ravers, quadrinhos como Os Invisíveis de Grant Morrison, sites psicodélicos ou contraculturais como o Levity (www.levity.com), Disinformation (www.disinfo.com), The Bomb (www.barbelith.com/bomb/) ou Hyperreal(www.hyperreal.org).

Tudo bem, depois de tudo que foi dito acima, pode ser que você ainda não veja razão alguma para ler McKenna. Mas pare um pouco. Lembra daqueles livros que depois de ler ainda ficam vários dias mexendo com as idéias de sua mente? É…Aquela sensação de barato, sabe, estado alterado de consciência atingido sem nenhuma droga ou estimulante, como o estado de graça em que a gente fica quando assiste um filme maravilhoso. Pois o barato de McKenna é justamente esse. Só de ler você já fica em estado ampliado de consciência.

O que é xamanismo e sua aplicação nos dias atuais.

Quando se aproxima o verdadeiro propósito da alma, tudo da natureza interior vem a tona.

O xamanismo é a mais antiga prática espiritual, médica e filosófica da humanidade. Hoje médicos, advogados, donas de casa, psicólogos, espiritualistas, místicos, estudantes, executivos, e pessoas das mais variadas crenças estão estudando e aplicando o xamanismo.

Os rápidos resultados, introvisões de profundo significado, o contato com realidades ocultas, a obtenção de auto-conhecimento, a busca do poder pessoal, contribuem para o interesse nas práticas. O xamanismo é um conjunto de crenças ancestrais. Sua prática estabelece contato com outros planos de consciência, a fim de obter conhecimento, poder, equilíbrio, saúde. Propicia tranquilidade, paz, profunda concentração, estimula o bem estar físico, psicológico e espiritual. O xamã pode ser homem ou mulher. É o mago, o curandeiro, o bruxo, o médico, o terapeuta, o conselheiro, o contador de estórias, o lider espiritual, etc. Ele é o explorador da consciência humana.

O praticante é levado a sair do torpor convencional, reconhecendo os seus limites, a sua limitada visão pessoal do mundo, buscando um plano mais universal. Através de um chamado interior ele vive um confronto existencial que o força a sair de uma zona de conforto, do falso brilho, da alienação.

Reforçando a coragem e a determinação, o praticante mobilizado por visões, introvisões e vivências, expande a sua consciência, podendo processar transformações de profundas proporções na sua vida. O xamanismo resgata a relação sagrada do homem com o planeta.

Praticar xamanismo é ir em busca da excelência espiritual, é enxergar a realidade existente por trás dos conceitos, é se harmonizar com as marés naturais da vida. É trilhar o Caminho Sagrado, atravessando os portais da mente, das emoções, do corpo e do espírito.

A premissa básica é o reconhecimento que todos fazemos parte da Família Universal e tudo está interligado. O praticante compreende o “Espírito Essencial” que está dentro dele mesmo, na natureza e em todos os seres. Ele sabe quem ele é , e como se relaciona com o Universo.O reconhecimento do caminho da verdade vem da expansão da consciência e a compreensão que o verdadeiro poder está dentro de cada praticante, e provém do desenvolvimento de seus próprios dons.
Hoje, no Planeta, a vibração está mais alta do que nunca. As pessoas se preocupam cada vez mais com o autoconhecimento e fazem a sí mesmo uma pergunta : “O que eu realmente devo fazer na vida? “Nesta busca deparam-se com barreiras, seja com relacionamentos, trabalho, saúde, carreira e etc.

O maior obstáculo para o crescimento é a inércia, que cria a insensibilidade, pois priva o indivíduo de novas possibilidades, cria passividade com relação à vida. Cria falta de vitalidade, limita a criatividade e predispõe ao papel de vítima. A consciência se limita a fugir, a ter medo. A vítima fica sempre vivendo as sombras do passado e com medo do futuro.

As práticas xamânicas compelem a mente a viver dentro do coração, até que a mente ignorante seja destruída. Isso se manifesta quando o ser se revela espontaneamente. Na verdade, o antigo modo de viver acaba, abrindo caminho para um jeito mais consciente.

Quando se aproxima o verdadeiro propósito da alma, tudo da natureza interior vem a tona. A pessoa entra em um processo mais rápido de transformação pessoal. Quando convidamos o amor para despertar poderes mais profundos, trabalhar nos desafios torna-se uma aventura.

O praticante explora a estrutura de sua própria consciência e vai compreendendo como os fatos acontecem na sua vida, deixando de ser vítima das circunstâncias. Sente-se inspirado pelos desafios e aprende a utilizar a energia de forma a caminhar no Amor – Paz e Luz.

Praticando a sabedoria das antigas tradições adaptadas ao mundo atual e ao estado atual da alma humana, o trabalho é feito com tambores, canções, meditações, instrumentos de poder, danças, respirações, visualizações, histórias, vivências e muito, muito amor.