Terence McKenna – O Retorno à Cultura Arcaica.

Só de ler você já fica em estado ampliado de consciência.

O mundo vai se acabar em 2012. Entraremos então na Supermente, o Logos, matriz de toda a linguagem. O OVNI é uma inteligência superior com que podemos entrar em contato através dos cogumelos. A realidade virtual transformará os sons em imagens. As raves são espaços privilegiados para a transcendência e superação do ego. Estamos agora no limiar de um retorno à cultura arcaica e ao xamanismo. Todas essas idéias e memes estão inevitavelmente ligados a Terence McKenna. Falecido em 03 de abril de 2000, McKenna era considerado por muitos o sucessor de Timothy Leary. Guru psicodélico, McKenna era um explorador do caminho aberto por Huxley, Wasson, Leary, Metzner e outros no estudo dos efeitos das substâncias psicodélicas sobre a imaginação humana. Seu objeto de estudo, ao contrário de Leary, não eram produtos de laboratório como o LSD, nem mesmo o símbolo da geração bpm, o ecstasy. Não, McKenna era mais natureba e seus principais focos de atenção eram os cogumelos que contivessem psilocibina, e o DMT, um psicoativo poderoso presente no ahayausca ou mais conhecido no Brasil como Santo Daime.

O DMT, quando fumado, produz um estado alterado de consciência por cerca de cinco minutos que, dependendo da quantidade utilizada, proporcionaria visões que nos permitiriam ter acesso a uma forma superior de inteligência extraterrestre presente desde tempos imemoriais em simples cogumelos silvestres como o Stropharia cubensis . Esta forma não humana de inteligência pode dialogar com o homem neste estado e seria na verdade uma matriz da linguagem proveniente do Logos ou Supermente criadora de todo o padrão presente na natureza desde a sua criação. Pequenos trols e duendes mecânicos falando através de imagens poligonais e bolas de basquete de cristal. Muito pirado? Pois isso é só o começo…

McKenna é um filho típico da contracultura dos 60 e foi estudante em Berkeley. Ao contrário da geração anterior, no entanto, Mckenna não fez o drop-out ( cair fora ) dos hippies. Trouxe, isso sim, o fruto de seus estudos sobre os psicodélicos naturais para um publico vasto e não só acadêmico. Seu esforço em estudar os efeitos desses psicoativos ao longo de toda a vida vem no bojo de uma geração que pode hoje em dia dissertar sobre os psicodélicos em centros de estudo relativamente considerados como Esalem ou o Instituto de Ciências Noéticas.

Seu nome é tão importante quanto o de psicanalistas como Leary, Ralph Metzner ou Stanilav Grof, o estudioso de golfinhos Dr. John Lilly, o bioquímico Rupert Sheldrake ou o matemático Ralph Abraham. Com estes dois últimos por sinal publicou um livro, traduzido no Brasil pela editora Cultrix, chamado Triálogos. Nele são discutidos temas científicos e holísticos como a teoria do caos, a hipótese Gaia, campos morfogenéticos, realidade virtual e êxtases xamãnicos. Junto com Sheldrake e Abraham, McKenna toca em temas vitais para a fringe science (ciência alternativa) de nossa época. A física quântica e a teoria do caos têm permitido à ciência entrar em terrenos antes considerados tabu, e já não parece nem um pouco estranho falar de uma consciência global do planeta, nem em rituais xamãnicos como instrumento de cura.

Tudo isso faria parte de um movimento da humanidade de retorno à cultura arcaica dos povos primitivos e, nesse sentido, as tribos indígenas seriam verdadeiros repositórios da inteligência milenar do planeta e guardiões dos segredos das plantas, do ecossistema e do próprio espírito de Gaia, a Terra.

Esta nova consciência, que já estaria latente em toda a arte e cultura do século vinte como nostalgia do arcaico, muito mais que “ nova era ”, seria o que McKenna denomina de revival arcaico ( archaic revival ), nome por sinal de um de seus livros traduzidos em português, aqui intitulado O Retorno à cultura arcaica. Não muito longe está McKenna do que o cientista Thomas Kühn sabiamente chamou de “ mudança de paradigma” em meados dos anos 60, ao se referir ao estado da ciência com a trilha aberta pela teoria da relatividade e a física quântica, uma vez que o determinismo mecanicista da era de Descartes cai por terra.

McKenna escreveu muitos livros (alguns com seu irmão Dennis, neurobiólogo e etnobotanista), entre os quais O alimento dos deuses (ed. Record, 1995), Alucinações reais ( ed. Record, 1993) The Invisible Landscape (Seabury, 1975) e o livro ilustrado ( com o artista Tim Ely) Synesthesia (Granary Books, 1992). No primeiro, McKenna explora a hipótese de que o ser humano adquiriu a linguagem e a reflexão a partir da ingestão de cogumelos na pré-historia, tese antes cogitada por Henry Munn em Os cogumelos da linguagem ( Oxford University Press, org. Michael Harner, 1973). O livro explora igualmente todo um leque de estimulantes e estupefacientes desde o açúcar, o café e o tabaco passando pelo álcool até chegar na cannabis, no cogumelo e no Soma, a bebida sagrada dos Vedas. Junte a isso, dados históricos de civilizações desaparecidas, estudos de hábitos alimentares e uma antevisão do futuro, e o livro se afigura como uma nova abordagem do surgimento da consciência humana.

Em Alucinações reais, McKenna narra a viagem feita por ele com o irmão à floresta amazônica, buscando os psicodélicos naturais da selva com o auxílio de nativos. Essa viagem marcaria para sempre a vida dos dois irmãos e sua importância mítica na trajetória de ambos fez dela muito mais um rito iniciático que uma exploração de caráter científico. Os insights e visões alucinantes com revelações surpreendentes geraram não apenas a narrativa da aventura em Alucinações como seu antecessor, o incrível e estranho The Invisible Landscape.

Autêntico cult psicodélico escrito junto com seu irmão Dennis McKenna, The Invisible Landscape – Mind hallucinogens and the I-Ching ( ainda sem tradução para o português) é a primeira tentativa de interpretar o choque da revelação de suas experiências com os alucinógenos amazônicos num livro que se utiliza tanto da ciência como da filosofia ocidentais, como diz no prefácio Jay Stevens, autor do super cultuado Storming Heaven – LSD and the american dream. A paisagem invisível de McKenna seria visível nos estados alterados de consciência e nas revelações que trariam consigo. O xamanismo e a esquizofrenia como estados de acesso alterado da mente que por sua vez seriam a base de uma teoria holográfica da mente. Dennis compara os estados da mente sob o efeito de psicodélicos em termos neurobiológicos, culminando com as revelações acontecidas em La Chorera. A segunda parte é Terence interpretando a revelação do cogumelo e tudo para dar a base para sua hipótese de estudar o calendário lunar sob a ótica do I-Ching, hipótese essa que lhe teria sido sugerida por uma estranha inteligência insectóide.

“Nós podíamos sentir a presença de alguma entidade hiperespacial invisível, um alien, que parecia estar nos observando e algumas vezes exercendo influência na situação para nos manter movendo gentilmente para uma resolução experimental das idéias que vínhamos tendo. Por causa da natureza alienígena do transe de triptamina, sua aparente acentuação de temas alienígenas, insectílicos, e futuristas e devido a experiências prévias com triptamina em que transformações alucinatórias e insectílicas de seres humanos foram observadas, nós fomos levados a especular que o papel daquele ser era algo como aquele de um antropólogo vindo dar à humanidade as chaves para a cidadania galáctica” .

O estudo do I-Ching sugerido pela inteligência desconhecida revelou que haveria um padrão rítmico no tempo, um ritmo que dançaria em sua cadência pelo milênio até chegar num Ponto Ômega que os McKenna calcularam como sendo o ano 2012. A onda-tempo zero, o fim da história. As análises de dados calculados com base nos hexagramas do I-Ching do que seria uma ressonância temporal de novidades mostram que em 2012 estaremos chegando a uma culminação tamanha de entrada de novidades na esfera dos acontecimentos que chegaremos a um ponto máximo de sublimação temporal. É igualmente quando acaba o calendário maia.

Em que ecoem Theilhard de Chardin, as idéias de McKenna sobre o ponto ômega deixam mais claro seu fundo gnóstico, como será visto a seguir, e os irmãos têm uma data precisa para seu acontecimento: 22 de dezembro de 2012, quando o mundo cessar de existir tal qual o conhecemos, quando nos uniremos com a entidade cósmica superior ou Supermente global.
Tal situação, segundo McKenna, seria incrementada pela presença de um objeto desconhecido nessa data nos guiando magneticamente na direção da superação da dualidade corpo e mente pela unificação com o Logos.

Se a visão, digamos, milenarista de McKenna prevê um apocalipse, essa visão é pelo menos bem mais alegre, joyeuse, que as distopias de nossos cientistas sociais. Sua positividade é manifesta. Seu caráter festivo não passou alheio ao público raver que no boom zippie de cinco anos atrás cultuou McKenna como um legítimo profeta da pronóia (o contrário da paranóia, ou sensação de que o mundo conspira a seu favor), cuja linhagem utópico libertária teria aproximação com figuras como Charles Fourier, Wilhelm Reich, Norman O. Brown, Hakim Bey, Raoul Vaneigem, Oswald de Andrade, entre outros.
A jóia rara que é Synesthesia é o resultado de um trabalho conjunto com o artista Tim Elly, e contém desenhos originais e imagens pintadas de misteriosos glifos, mapas e devaneios visionários. Objeto só para colecionadores.

Mas o melhor livro para se introduzir no universo McKenna é sem dúvida O retorno à cultura arcaica, um apanhado geral de suas idéias, reunindo entrevistas, textos escritos para revistas, ensaios, palestras. Por sua urgência de interesse, em espantosa simbiose com o atual estado das coisas, este livro é absolutamente imperdível. O revival arcaico de McKenna nos permite leques de iluminações sobre as fronteiras da mente humana, os precursores dos estudos de psicodélicos, a realidade virtual, a idéia do OVNI como entidade psíquica autônoma.

Sua teoria é de que o extraterrestre é na verdade emanação da Supermente, “campo gerado pelos seres humanos, escapando ao controle de qualquer instituição, governo ou religião”. O OVNI desconcerta a comunidade científica e seu constante “reaparecimento” na mídia cotidiana nos diz que o OVNI representa um poderoso mito de nossa época, ao qual também já se voltaram Jung e Reich. Um mito, se provada a existência, capaz de provocar um choque de proporções insuspeitadas, abalando a ciência oficial e criando uma nova religião. Esta incorporaria em torno do OVNI a mesma devoção arquetípica que o cristianismo aplicou à Ressurreição.

Igualmente surpreendentes são suas conjecturas sobre o amor extraterrestre, isso mesmo, a recente “dimensão erótica” do fenômeno dos discos voadores. Por mais divertidas ou absurdas que possam parecer a miríade de temas abordados por McKenna, a leitura fluida e rápida pelos tópicos mais pirantes na leveza de uma entrevista, que volta e meia reaparecem sob novos prismas em ensaios, funciona caleidoscópicamente para o leitor. Não que suas idéias, é claro, possam ser aceitas com facilidade.

Válidas ou não, a verdade é que as teorias de McKenna repercutem polêmicamente no meio científico. Em que pese os que contestam seu cálculo da onda-tempo zero, McKenna é referência para vários pesquisadores importantes de àreas como biologia, etnobotânica, antropologia ou psicologia.

Mas essas teorias tem um outro subtexto, não científico: a gnose. A visão de mundo gnóstica tem tido um crescente reavivamento de interesse desde a descoberta dos manuscritos de Nag Hammadi, Egito, em 1945. O conhecimento da gnose, que se desenvolveu com o cristianismo e teria raízes em certas seitas gregas, foi praticamente extinto no terceiro século da era cristã por dizimação e perseguição da igreja apostólica. Os manuscritos descobertos no Egito oferecem visões insuspeitadas dos mitos e memes bíblicos, versões diferentes do Gênese, intensa valorização do feminino em certos textos, novas facetas de um cristo irreconhecível talvez, textos pagães, retorno da mitopoética já presente em toda a tradição gnóstica ocidental como no Pistis Sofia descoberto no século dezenove.

A Gnose nos diz que vivemos no mundo do demiurgo, um mundo falso criado por um falso deus que se vale dos seus asseclas, os reguladores ou arcontes, para manter a ordem. Além deste mundo estaria o Pleroma, onde respira a vibração cósmica do Logos, o verdadeiro criador. Uma interpretação simplificada desse mito iniciático significa que vivemos na ilusão de um ego que é o próprio inimigo do homem pois a respiração cósmica não está fora mas dentro dele mesmo, enquanto o ego o mantém na ilusão da existência.

Esta visão brevíssima e superficial da mitopoética gnóstica aparece sob diversas formas nos evangelhos achados em Nag Hammadi. As versões inusitadas e surpreendentes do Cristo e de mitos do velho testamento tem sido exploradas com profundidade e ousadia pela estudiosa Elaine Pagels, que acrescenta sua visão feminina e polêmica das interpretações bíblicas de Nag Hammadi contrapostas às da igreja tradicional.

Theilhard de Chardin, sob o viés mesmo do catolicismo, explorou hipóteses de inegável fundo gnóstico como a do Ponto Ômega de convergência e do Logos, que atribui ao Deus católico. Não obstante a predominância de tal religião sobre sua cosmovisão místico-científica, a Igreja proibiu que o estudioso publicasse seus estudos em vida, só vindo estes a lume post-morten, no que poderia muito bem se admitir que o principal motivo dessa censura fosse a presença subliminar de conceitos gnósticos nas teorias de Chardin.

A gnose e a visão do mundo ao contrário cabe bem em nosso mundo de crescente virtualização. A inversão, o pulo no espelho do Orfeu de Cocteau como estrátegia de conhecimento e de iniciação, tema constante, mesmo um leitmotiv em tantos filmes e ficções do presente como Matrix, o Show de Truman, A vida em preto e branco (Pleasantville), para ficar em apenas três filmes recentes, nos quadrinhos Promethea de Alan Moore, na adoração que artistas como Lydia Lunch ou a banda Sonic Youth lhe devotam, no mito da alucinação consensual coletiva dos cyberpunks como William Gibson, em teses de críticos musicais influentes como Greil Marcus, a arquitetura visionária de Paolo Soleri ou o desenho animado Aeon Flux.

Se o pop ficou gnóstico, é questão a se discutir. Mas o fato é que a gnose pode fornecer muitas chaves para se entender a ficção e ou fenômenos reais como o Heaven’s Gate, mas igualmente para se ler McKenna e o fundo místico de suas idéias.

Não à toa, Erik Davis, brilhante jornalista, entre outros, do Village Voice e da famosa revista Gnosis, criou o termo de tecnognose. O livro, Techgnosis, saiu no ano passado e foi bastante elogiado por sua “história profana” da gnose em nossa época secularizada. Davis enxerga gnose nos lugares mais escondidos, de notas de dólar à arquitetura administrativa, de enredos de séries de tevê a supermercados, e simbologias antes ocultas, mas cotidianas e casuais ressurgem com outra aparência, o desvelar arcano de seu significado. Davis por assim dizer reencanta o mundo reificado da globalização corporativa capitalista com novas interpretações de ritos simbólicos repetidos infinitamente em escala mundial. O próprio conceito da tecnognose seria mesmo essa relação contemporânea de simbiose da tecnologia com a mística gnóstica no subconsciente contemporâneo.

Aqui se encaixa perfeitamente a união que McKenna faz da ciência com a exploração iniciatória dos limites da imaginação e do êxtase. Seu otimismo entusiasmado em relação às possibilidades da realidade virtual como libertadora da linguagem seria um exemplo entre tantos de uma tecnognose mckenniana.
De qualquer forma, a presença de McKenna é um espectro subliminar mas constante no imaginário atual. Suas idéias inspiram bandas eletrônicas como Spacetime Continuum e System 7, tribos de zippies e ravers, quadrinhos como Os Invisíveis de Grant Morrison, sites psicodélicos ou contraculturais como o Levity (www.levity.com), Disinformation (www.disinfo.com), The Bomb (www.barbelith.com/bomb/) ou Hyperreal(www.hyperreal.org).

Tudo bem, depois de tudo que foi dito acima, pode ser que você ainda não veja razão alguma para ler McKenna. Mas pare um pouco. Lembra daqueles livros que depois de ler ainda ficam vários dias mexendo com as idéias de sua mente? É…Aquela sensação de barato, sabe, estado alterado de consciência atingido sem nenhuma droga ou estimulante, como o estado de graça em que a gente fica quando assiste um filme maravilhoso. Pois o barato de McKenna é justamente esse. Só de ler você já fica em estado ampliado de consciência.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *